10º Domingo do Tempo Comum: Caminhar no Amor, Não na Aparência dos Ritos
“O chamado vem antes da conversão. A misericórdia precede a mudança.”
Há uma cena no Evangelho de hoje (Mt 9,9-13) que merece toda a nossa atenção. Jesus passa por uma coletoria de impostos, olha para um homem chamado Mateus e diz apenas duas palavras: “Segue-me.” Mateus simplesmente se levanta e O segue. Sem negociação, sem lista de condições, sem exigência prévia de perfeição.
Isso não é um mero detalhe; é o coração do Evangelho. Logo em seguida, Jesus senta-se à mesa com cobradores de impostos e pecadores. Para os fariseus, a santidade se media pela distância: quanto mais longe do impuro, mais perto de Deus. Jesus inverte essa lógica completamente ao citar o profeta Oseias: “Quero misericórdia, e não sacrifício” (Os 6,6). Não é uma citação decorativa, mas uma correção de rota para quem confunde religiosidade com proximidade de Deus.
O Perigo da Performance Religiosa (Os 6,3-6)
Oseias falava a um povo que praticava o culto, mas não praticava o amor; oferecia holocaustos, mas não oferecia o coração. O Senhor é direto: “O vosso amor é como nuvem pela manhã, como orvalho que cedo se desfaz”. É a devoção de fachada.
Essa é uma tentação antiga e muito atual. É plenamente possível participar da Santa Missa, rezar o terço, cumprir piamente os ritos e, ao mesmo tempo, manter o coração fechado para o irmão ao lado. Ser rigoroso na observância e indiferente ao sofrimento alheio não é conhecimento de Deus: é performance religiosa. Deus quer o sacrifício do nosso orgulho e da nossa autossuficiência.
A Fé de Abraão: Confiar Antes de Ver (Rm 4,18)
São Paulo nos apresenta Abraão como modelo de fé. Do ponto de vista humano, a promessa era impossível por causa de sua idade avançada e da esterilidade de Sara. Mesmo assim, ele “contra toda a humana esperança, firmou-se na esperança e na fé”. Ele não fraquejou nem calculou.
Foi exatamente o que Mateus fez ao se levantar da coletoria. Não pediu garantias nem fez perguntas. Há momentos em que Deus nos pede exatamente isso: levantar antes de entender, confiar antes de ver e caminhar antes de ter o mapa completo.
“Nenhum de nós foi chamado porque era perfeito. Fomos chamados porque Deus quis. A Igreja não pode ser uma comunidade de ‘chegados’ que olha de longe para os que estão de fora; a Igreja é a casa do médico, e o médico sai para buscar quem precisa de cuidado.”
O Médico que Busca os Doentes
Diante das críticas, Jesus recorda que o médico não visita os que estão bem, mas os enfermos. Isso não é uma defesa da mediocridade moral, mas a pura lógica da misericórdia divina. Deus não espera que estejamos prontos para nos chamar; Ele nos encontra no meio da nossa fragilidade e das nossas contradições.
Conclusão e Apelo Pastoral
Neste domingo, somos convidados a rever onde colocamos o peso da nossa vida de fé. Nos rituais que cumprimos ou no amor que praticamos? Na observância que exibimos ou na misericórdia que oferecemos?
A resposta de Jesus é claríssima. Caminhemos no Senhor, não na aparência da religião, mas na profundidade real do amor e da caridade cotidiana.