A Santidade de Avental

A Santidade de Avental

Meus caros irmãos e irmãs, especialmente vocês que gastam a vida nos corredores de hospitais e ambulatórios.

Neste Dia Mundial do Enfermo, não quero gastar papel com teorias bonitas que não resistem a um plantão de doze horas. Como salesiano, aprendi com Dom Bosco que a santidade não é para gente de pescoço torto, mas para gente que arregaça as mangas. E é exatamente isso que a mensagem do nosso Papa Leão XIV nos pede este ano: que recuperemos a “beleza da caridade” em serviço e não tenhamos medo de suar a camisa.

O Papa foi direto ao ponto ao retomar a parábola do Bom Samaritano. Ele diz que vivemos numa cultura da pressa que nos faz “passar ao largo”. E nos alerta: “Ninguém é próximo de outro enquanto não se aproxima voluntariamente dele”. Não adianta falar de humanização se a gente não para, não olha no olho e não toca na ferida. O Papa pede uma “proximidade humana e solidária” que não seja apenas burocracia, mas vivida!

“Não sejam cristãos de sofá”

Lembro-me com saudade do nosso Papa Francisco, citado com tanto carinho por Leão XIV nesta mensagem. Francisco tinha uma frase que me provocava e me movia: “Não sejam cristãos de sofá”. Ele nos ensinou que a fé que não toca a carne de Cristo no pobre e no doente é uma fé de museu. O próprio Leão XIV reforça isso ao dizer que a compaixão “não é teórica nem sentimental, mas traduz-se em gestos concretos”.

A visão que quero partilhar com vocês hoje vem de um “santo da porta ao lado”, um irmão meu salesiano, Santo Artêmides Zatti. Ele era enfermeiro. Não foi bispo, não foi papa, não escreveu encíclicas. Ele pedalava sua bicicleta para visitar os doentes. Quando lhe perguntavam como conseguia tratar a todos, ele vivia o que o Papa hoje chama de “dar-se a si mesmo”, fazendo com que sua própria pessoa fosse parte do remédio.

Essa é a teologia que falta hoje: a “Teologia da entrega, do serviço”. O hospital não é uma oficina de consertar corpos; é um Oratório. É um pátio onde a dor encontra o Amor.

A missão da Pró-Saúde brilha exatamente aqui. O Papa Leão XIV faz uma observação preciosa sobre o “estalajadeiro” da parábola. O Samaritano não agiu sozinho; ele precisou de uma estrutura, de um lugar de acolhida. O Papa diz que somos chamados a “encontrar-nos num ‘nós’ mais forte do que a soma de pequenas individualidades”. A Pró-Saúde é esse “nós”. É essa estalagem organizada onde a gestão se torna diaconia, serviço. Quando um profissional da Pró-Saúde atende alguém, ele está dizendo, sem palavras: “Você tem valor, você é amado”.

O Papa Leão XIV, em sua mensagem, fala que “o amor não é passivo”. Eu digo mais: um cristão que tem asco de ferida ou medo de doença não entendeu o Evangelho. Jesus não curou de longe, por wi-fi. Ele se fez próximo.

Portanto, coragem! Não sejam tíbios diante da dor alheia. O Papa nos lembra que “servir o próximo é amar a Deus na prática”. A doença assusta, o sofrimento cansa, mas é lá que Jesus está escondido, esperando nossa visita. Que a Pró-Saúde continue sendo essa “hospedaria do Bom Samaritano” no Brasil: um lugar onde ninguém passa ao largo.

Acreditem no Amor, pois só o Amor dá sentido à dor.


Dom Antonio Carlos Altieri, SDB
Arcebispo Emérito de Passo Fundo

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