Vamos rezar e escutar a voz de Deus em nossas vidas!

Como nos relacionamos com Deus? Comunicamos com Ele? Sentimos necessidade de falar com Ele sobre a nossa vida, as nossas inquietações, dúvidas, alegrias e tristezas? Estamos interessados em escutar o que Deus tem para nos dizer? Como se processa o nosso diálogo com Deus? É sobre estas questões que a Palavra de Deus deste domingo nos fala.

Na primeira leitura – Gn 18,20-32 – o patriarca Abraão dirige-se ao Deus que veio visitá-lo e dialoga com Ele. Abraão expõe a Deus as suas inquietações, as suas dúvidas, as suas questões, num diálogo respeitoso, mas também frontal, sincero, confiante. Deus responde de forma franca às perguntas de Abraão e partilha com ele os planos que tem para o mundo e para os homens. É um diálogo honesto e verdadeiro de amigos que têm apreço um pelo outro e que se interessam pelo que o outro pensa e sente. Esta “conversa” pode ser modelo da nossa oração, do nosso diálogo com Deus. A súplica insistente de Abraão mostra-se capaz os desígnios de Deus. O “juiz de toda a terra” revela-se mais como amigo inclinado a amar, acolher e perdoar do que como juiz que condena. Isso serve muito para nós hoje: um juiz não pode ser juiz e promotor ao mesmo tempo. Um juiz não pode juntar provas num processo judicial que não sejam apresentadas pelo Ministério Público ou requerida pelas partes. Um juiz não pode condenar quem seja seu desafeto, ao contrário deve se dar por impedido. A justiça autêntica é aquela que se atenta a fatos e não há narrativas ou viéis político-partidário. A vida dos justos é esperança para um mundo melhor!

No Evangelho – Lc 11,1-13 – Jesus conta aos discípulos a sua experiência de Deus e mostra-lhes como devem falar com Deus. Convida-os a verem Deus como um pai bom e cheio de amor, sempre disponível para escutar os seus filhos; pede-lhes que, quando falarem com esse Pai, procurem perceber e acolher os projetos que Ele tem para o mundo e para os homens; sugere-lhes que se entreguem nas mãos desse Pai e que confiem n’Ele incondicionalmente. Assim, cada momento de oração será uma experiência inolvidável de intimidade, de familiaridade e de comunhão. A atitude orante de Jesus anima os discípulos a pedir que os ensine a rezar. O Mestre lhes ensina a oração por excelência, a oração dos filhos e filhas de Deus, o pai-nosso. Deus é “Pai de todos”, e não apenas “meu Pai”. Nessa oração, pedimos o que é necessário para nosso cotidiano. Como discípulos de Jesus, peçamos-lhe que nos ensine a rezar!

O peso das palavras do Pai-Nosso deve comprometer uma mudança na nossa vida. Cinco são os pedidos do “Pai-nosso”, tal como Lucas nos apresenta. É oração com a qual nos dirigimos ao “Abbá”, o Pai querido de Jesus e nosso. Não é Pai severo, mas bondoso e cheio de amor, de quem não temos medo. Com ele estamos em casa e, irmanados, pedimos que seu nome seja santificado na vivência de nossa fraternidade. Pedimos, em seguida, que venha a nós o Reino do Pai querido. E com isso expressamos nossa insatisfação com os reinados e poderes deste mundo, dispondo-nos a agir para que novas relações de solidariedade, serviço e misericórdia manifestem o Reinado de Deus em Jesus. Pedimos para todos o pão cotidiano, na consciência de que, pela ganância egoísta de quem deseja acumular, muitos dos que chamamos de irmão acabam passando fome. Pedimos que o Pai nos perdoe e fundamentamos esse pedido no fato de nós também perdoarmos aos outros. Na oração, aliás, dizemos: “assim como nós perdoamos”. Mas será que realmente perdoamos. Eu fico estarrecido quando vejo, sobretudo clérigos, que deveriam ser os ministros da reconciliação, descartar, perseguir ou mesmo aniquilar seus oponentes. Por fim, pedimos que o Pai não nos deixe cair em tentação. Ou seja, que nos livre de direcionar a vida por um caminho que não seja o caminho de seu filho Jesus.

Na segunda leitura Paulo – Cl 2-12-14 –, dirigindo-se aos cristãos da cidade de Colossos, recorda-lhes o papel e o lugar de Cristo no projeto salvador de Deus em favor dos homens; e convida-os a serem coerentes com os compromissos que assumiram no dia em que escolheram caminhar com Cristo. Com o batismo, passamos com Cristo da morte para a vida. Se vivermos em comunhão com o Ressuscitado, seremos reconciliados com Deus em virtude da doação de Jesus, anulando a “conta a ser paga”.

Rezemos para que a nossa vida seja um constante Pai Nosso, mas sobretudo, que vivamos as cinco petições que hoje nos apresenta o Evangelista Lucas. Para ir para o céu não precisa de discursos bonitos, mas de gestos eloquentes de perdão, compaixão e misericórdia!

+ Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá, PR

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